Nos últimos meses, escrevi sobre a espiritualidade cristã. Podemos sintetizá-la afirmando que é o seguimento de Jesus. Aceitar seu convite para segui-lo significa compartilhar seu modo de pensar, sentir e agir. Deixar-se guiar pelo seu Espírito. Fazer-se seu discípulo. E, por isso, missionário de seu Evangelho. A Conferência Episcopal Latino-Americana, reunida em maio de 2007, em Aparecida, popularizou a expressão “discípulos missionários” do Senhor. Aqueles que desejam ficar verdadeiramente parecidos com o Mestre, assumindo a centralidade do Mandamento do amor, tal como ele o fez, chamando-o de “seu” e de “novo” (Documento de Aparecida – DAp – n. 138).
“No seguimento de Jesus Cristo, aprendemos e praticamos as bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do próprio Jesus: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão entranhável frente à dor humana, sua proximidade aos pobres e aos pequenos, sua fidelidade à missão encomendada, seu amor serviçal até à doação de sua vida. Hoje, contemplamos a Jesus Cristo tal como os Evangelhos nos transmitem, para conhecermos o que Ele fez e para discernirmos o que nós devemos fazer nas atuais circunstâncias” (DAp n. 139).
No seguimento de Jesus, buscando identificar-nos com Ele, como discípulos missionários, não somos os primeiros. Temos inúmeros modelos que nos iluminam e encorajam. Um, particularmente, nos é muito caro: o primeiro e mais perfeito modelo do discípulo missionário do Senhor. “A Virgem Maria é a imagem esplêndida da conformação ao projeto trinitário que se cumpre em Cristo” (DAp n. 141). Em nosso continente, “quando se quer enfatizar o discipulado e a missão, é ela quem brilha diante de nossos olhos como imagem acabada e fidelíssima do seguimento de Cristo” (DAp n. 270). Como afirmou o Concílio Vaticano II, os Bispos em Aparecida também apresentam Maria como “a discípula mais perfeita do Senhor” (DAp n. 266). Maria é também “a grande missionária, continuadora da missão de seu Filho e formadora de missionários” (DAp n. 269).
Todas essas afirmações estão profundamente ancoradas nos Evangelhos. Neles, Jesus nos apresenta o discípulo ideal. No Evangelho de Lucas, por exemplo, Jesus narra a parábola do semeador e, depois, a pedido dos discípulos, a explica (Lc 8,5-15). Em sua conclusão, o ideal do discípulo é apresentado como a semente que caiu em terra boa: “O que caiu em terra boa são aqueles que, ouvindo de coração bom e generoso, conservam a Palavra e dão fruto na perseverança” (Lc 8,15). Estão presentes as três características essenciais do discípulo: ouvir a Palavra; guardá-la ou meditá-la e colocá-la em prática. Quem ouve a Palavra não pode escondê-la, mas deve anunciá-la, como alguém que acende uma lâmpada e a coloca no candeeiro e não debaixo da cama (Lc 8,16-18). Ao final dessas duas parábolas, anunciam a Jesus que sua mãe e seus irmãos estão à sua procura, ao que ele responde:
“Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21).
Não podemos analisar detalhadamente este “dito”, esta “afirmação” de Jesus neste artigo, mas uma breve explicação é necessária. Ela aparece em Marcos, mas o contexto e a forma em que ele a apresenta parecem negativos em relação a Maria (Mc 3,20-35; particularmente os vv. 31 a 35). Aparece de forma neutra em Mateus (12,46-50). Em Lucas, todo o contexto é altamente positivo e o próprio “dito” está em tom afirmativo. Maria não fica fora de onde Jesus está porque não quer entrar, mas porque a multidão a impede (v. 19); em Lucas não há a pergunta de Jesus – “quem é minha mãe e meus irmãos?” (Mc 3,33); em Marcos, Jesus responde olhando para os que estavam em volta dele (v. 35); em Lucas não há nada disso.
É interessante aprofundar um detalhe dessas três abordagens: nelas, a “família biológica” de Jesus está fora do ambiente onde ele se encontra. Ela é também convidada a entrar, ou seja, também ela precisará fazer a caminhada da fé para integrar a nova família de Jesus que, por falta de um termo melhor, se acostumou a chamar de “família escatológica”, aquela reunida não a partir dos laços de sangue, mas pela prática da vontade de Deus. Foi isso que quis afirmar o Concílio com a expressão “peregrina da fé” (Lumen Gentium, n. 58). E o aprofundou Aparecida: “Ela viveu completamente toda a peregrinação da fé como mãe de Cristo e depois dos discípulos, sem estar livre da incompreensão e da busca constante do projeto do Pai” (DAp n. 266). De fato, um pouco à frente, Lucas afirma:
“Enquanto Jesus dizia essas coisas, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e lhe disse: ‘Feliz o ventre que te carregou e os seios que te amamentaram’. Jesus respondeu: ‘Mais felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática’” (Lc 11,27-28). Ao que Santo Agostinho comentou: “Acaso não fez a vontade do Pai a Virgem Maria, que creu pela fé, pela fé concebeu, foi escolhida dentre os homens para que dela nos nascesse a salvação e que foi criada por Cristo antes que Cristo nela fosse criado? Sim! Ela o fez! Santa Maria fez totalmente a vontade do Pai e por isto mais valeu para ela ser discípula de Cristo do que mãe de Cristo; maior felicidade gozou em ser discípula do que mãe de Cristo. Assim Maria era feliz porque, já antes de dar à luz o Messias, trazia-o na mente” (Sermão 25,7).
Será, pois, com o molde do discipulado – ouvir a Palavra, meditá-la e colocá-la em prática – que Lucas nos descreverá Maria nos dois primeiros capítulos do Evangelho, os chamados Evangelhos da Infância. Eles certamente foram escritos por último. Lucas olha para Maria, a discípula perfeita. Maria abre-se para escutar e acolher a Palavra (a “Anunciação do Anjo” – Lc 1,26-38). Como isso se processou é impossível dizer. Mas a disposição de Maria é clara: v. 38: “que sua palavra se cumpra em mim” (está em claro contraste com Zacarias, que duvidou — por isso, a mudez). Também o testemunho de Isabel: Lc 1,45: “Feliz és tu que creste, porque se cumprirá o que o Senhor te anunciou”. Deixa claro que a maternidade física não é o motivo principal para bendizer Maria, e sim o fato de ter acreditado. A Maria é aqui antecipada a bem-aventurança (makarioi = “feliz”) que Jesus pronunciará sobre seus discípulos (Lc 6,20-22).
Dependendo das traduções, encontraremos uma variação de termos, mas o sentido é sempre o mesmo: reter / conservar / meditar / guardar (Lc 2,19.51). Esta é uma atitude básica no judaísmo. “Rememorar” — a Palavra é dirigida, nesse momento, a nós; é a base da espiritualidade humana. Uma vida saudável exige “espaço interior”: tempo e silêncio para encontrar sentido para a existência. As pessoas atualmente não têm, ou têm muito reduzido, esse espaço e tempo interior — barulho, muita informação e pouca memória.
Fazer a vontade de Deus. Dar bons frutos. Tão logo soube da gravidez de Isabel, visitou-a. Nós entendemos logo que Maria se colocou à disposição para ajudá-la. Maria leva Jesus a Isabel — é a primeira discípula cristã evangelizadora. A primeira discípula missionária. Neste encontro, Lucas coloca o Magnificat nos lábios de Maria, que foi declarada feliz (1,45); agora a faz porta-voz do tema da inversão, o destino dos pobres que fazem a vontade de Deus, parte vital da mensagem evangélica. Se, por sua aceitação da palavra de Deus sobre Jesus (1,38.45), Maria é a primeira discípula cristã, a primeira a reunir as qualidades exigidas pela família escatológica de Jesus (8,21), ela proclama agora, por antecipação, o evangelho. “O canto do Magnificat mostra Maria como mulher capaz de se comprometer com sua realidade e, diante dela, ter voz profética” (DAp n. 451).
Por fim, o mesmo Espírito que desceu em Pentecostes (At 1,13-14) é o que desceu sobre Maria (Lc 1,35), a quem prontamente respondeu: “Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Uma espiritualidade será tanto mais mariana quanto melhor realizar o discipulado de Jesus.
Artigo de Padre Belini, colunista do Jornal Servindo