No Servindo anterior escrevi sobre o papel educativo desenvolvido pela comunidade cristã no âmbito da iniciação cristã. Os primeiros cristãos, entre eles particularmente Paulo, gostavam de comparar a comunidade eclesial a uma família ou ao corpo, onde cada membro desempenha uma função de acordo com as necessidades de todos e as possibilidades de cada um. Com outras palavras, cada um colocava em função de todos os seus dons e carismas. Podemos lê-lo em uma perícope expressiva:
“Foi ele quem estabeleceu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas e outros como pastores e mestres. Assim, ele preparou os cristãos para o trabalho do ministério que constrói o Corpo de Cristo. A meta é que todos juntos nos encontremos unidos na mesma fé e no conhecimento do Filho de Deus, para chegarmos a ser o homem perfeito que, na maturidade do seu desenvolvimento, é a plenitude de Cristo. Então, já não seremos crianças, jogados pelas ondas e levados para cá e para lá por qualquer vento de doutrina, presos pela artimanha dos homens e pela astúcia com que eles nos induzem ao erro. Ao contrário, vivendo amor autêntico, cresceremos sob todos os aspectos em direção a Cristo, que é a Cabeça. Ele organiza e dá coesão ao corpo inteiro, através de uma rede de articulações, que são os membros, cada um com sua atividade própria, para que o corpo cresça e construa a si próprio no amor.” (Ef 4,11-16)
A comunidade cristã nasce do anúncio da Palavra de Deus e dela se alimenta. Não é difícil imaginar a grande importância que representou também na formação dos convertidos. Juntamente com os apóstolos ou epíscopos, encontramos na Igreja dos primeiros tempos com frequência os termos “didascalo” ou doutor e “catequista”, embora devamos nos precaver em não interpretarmos essas palavras como as compreendemos atualmente. Elas tinham um sentido mais abrangente. A palavra catequista, como catecumenato, procede do verbo grego Katechéin, que significa ressoar, fazer soar nos ouvidos e, por extensão, instruir, catequizar. Catequista é o que instrui na Palavra. São os responsáveis pela catequese, ou seja, pela formação dos catecúmenos. Sobretudo neste início, eram em muitos casos, leigos. Alguns tinham “escolas” (eram comuns os mestres de escolas filosóficas) e através delas evangelizavam. É o caso, no segundo século, de Justino em Roma ou de Panteno em Alexandria. Mas também, e mais anônimos, os mestres que instruíam os catecúmenos e os fiéis nas assembleias.
Hipólito nos dá um exemplo desse modo de proceder em Roma, por volta do ano 215. Após mencionar que os catecúmenos devem “ouvir” a Palavra por três anos, afirma que o catequista, ao terminar a instrução deve rezar com eles e, por fim, “o catequista [doutor], após a prece, imporá a mão sobre os catecúmenos, rezará e os dispensará; quer seja um clérigo ou um leigo o que prega a doutrina assim o fará” (Tradição Apostólica 19 SC 11, p.47).
“Todo fiel e toda mulher fiel, ao levantarem-se do sono pela manhã, antes de tocarem o que quer que seja, lavem-se as mãos e rezem a Deus; dirijam-se, somente então, ao trabalho. Se houver instrução da palavra de Deus, prefiram encaminhar-se ao local, considerando em seu coração que é a Deus que ouvem naquele que prega. Todo aquele que rezar na igreja poderá vencer a maldade do dia, e o que temer a Deus considerará um grande mal não ir ao lugar da instrução, principalmente se souber ler ou se o catequista estiver presente” (Tradição Apostólica 31 SC 11, p.66; trad. bras. 88, p.63).
A partir de meados do século III, no entanto, preocupada com o aumento das heresias, a hierarquia começará a reservar o ministério da Palavra e, portanto, a função de ensinar, aos padres. Mesmo onde existe uma escola catequética dirigida por um leigo, como no caso de Alexandria com o famoso Orígenes, isto só será permitido com a nomeação pelo bispo e a vigilância de um padre. Aos poucos também os padres serão proibidos de pregarem durante a celebração eucarística, função então reservada exclusivamente para os bispos. No final do século IV será uma novidade encontrar Agostinho, ainda simples padre, fazendo homilias.
Este processo de “clericalização” parece ter refluído mais pelas próprias necessidades do que por valorização dos sacerdotes ou leigos instruídos. Com a oficialização do cristianismo como religião oficial do Império Romano, os bispos assumirão funções públicas, como a administração da justiça local, transferindo para os padres muitas de suas funções, como aquela de ensinar ou pregar. Os padres, por sua vez, nem sempre estavam mais bem preparados que os próprios leigos. Em Cartago e Antioquia os diáconos assumirão essa tarefa, como testemunha Agostinho em sua obra De catechizandis rudibus (Primeira catequese aos não cristãos) endereçada ao diácono catequista de Cartago, Deogratias, que estava insatisfeito com suas catequeses e pediu a Agostinho conselhos.
Aos ministros da Palavra de Deus, sejam eles catequistas ou doutores, pregadores ou leitores, homens ou mulheres, clérigos ou leigos, exige-se algumas condições. Duas são sempre mencionadas: conhecer bem a Palavra de Deus que se transmite e se comportar de acordo com o que prega. No século II, um autor que hoje conhecemos apenas como Carta de Clemente a Tiago afirma de forma lapidar, em um elogio a Clemente:
“Os catequistas [doutores ou pregadores] não devem exercer a sua função antes que tenham sido catequistas de si próprios, pois são os guias dos homens. Aquele que guia os outros no caminho da doutrina deve adaptar-se aos vários sentimentos daqueles a quem instrui. O catequista deve estar munido de conhecimentos sólidos, muito experientes e claros, cheios daquelas qualidades que encontrarás em Clemente”.
Encontramos estas características como exigência aos ministros da Palavra de Deus também em Cipriano de Cartago, em suas Cartas, escritas em torno do ano 250. Em sua Carta 39 exalta o exemplo que os ministros da Palavra exercem sobre os que os ouvem: “... não há nada em um confessor da fé que seja de maior proveito para os irmãos como o que, enquanto se ouve de sua boca a leitura do Evangelho, quem o escute imite a sua fidelidade” (Carta 39, 4, 2). Sobretudo quando o que escuta o ministro da Palavra era alguém que tinha abandonado uma heresia: “pois não é difícil a um catequista ir ensinando verdades e preceitos ao que, tendo condenado a maldade da heresia e reconhecido a verdade do Evangelho, vem para aprender e aprende para viver (Carta 73, 3, 2).
Entre os conselhos dados por Agostinho a Deogratias está o de apresentar a história da salvação “colocando esse amor” de Deus humilde e misericordioso que vem em socorro do ser humano, “como o teu grande objetivo, como a referência de tudo o que dizes, narra o que narrares de tal maneira que aquele que te ouve falando creia; crendo, espere; esperando, ame” (De catechizandis rudibus IV, 8). E Clemente de Alexandria afirma que o mestre (didascalo) forma, transforma e renova pela educação na ordem da salvação o homem que é catequizado (cf. Stromata VII, 9, 52; SC 428, p.175).
Todos os que assumem a missão de transmitir e formar na Palavra de Deus, dos bispos aos leigos, como ministros da Palavra, devem cultivar uma espiritualidade ancorada na própria Palavra que os sustentem e os alimente em sua vida e trabalho junto aos “simpatizantes”, catecúmenos ou já fiéis.
Artigo de Padre Belini, colunista do Jornal Servindo