A INICIAÇÃO COMO MISSÃO DA COMUNIDADE CRISTÃ

06 de Dezembro de 2024

"A INICIAÇÃO COMO MISSÃO DA COMUNIDADE CRISTÃ"

No Servindo anterior escrevi sobre a Iniciação à Vida Cristãcomo expressão da maternidade da Igreja. Podemos continuar utilizando essas comparações ricas de sentido e emoção e afirmar que a Igreja é como uma família que vive e cresce graças a participação de cada um a seu modo e condições. Foi o próprio Senhor quem nos fez sentir assim. O evangelista Marcos conta que certa vez, chegando sua mãe e irmãos onde Ele estava rodeado de pessoas que o escutavam, ao anunciarem a chegada de seus familiares respondeu: “Quem é minha mãe e meus irmãos?” E olhando para as pessoas que estavam sentadas ao seu redor e disse: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3,33-35). Antes, portanto, de qualquer ministério específico desenvolvido em vista da Iniciação à Vida Cristã de novos membros, é preciso refletir sobre a Igreja local, entendida como comunidade, em sua vida concreta e cotidiana, em sua função missionária e educativa.

Como família do Senhor, a comunidade cristã se caracteriza pelo cuidado mútuo entre os irmãos e irmãs. Esta é uma dimensão que Paulo trabalhou profundamente nas comunidades que fundou. Todos são responsáveis pela instrução e aconselhamento: “Que a palavra de Cristo permaneça em vocês com toda a sua riqueza, de modo que possam instruir-se e aconselhar-se mutuamente com toda a sabedoria” (Col 1,16). O próprio Paulo o faz quando necessário, “como se faz com filhos queridos” (1Cor 4,14). E recomenda, em casos mais graves, corrigir, mas não tratar “como um inimigo; ao contrário, corrijam-no como irmão” (2Ts 3,15). Enfim, “consolem-se mutuamente e ajudem-se uns aos outros a crescer” (1Ts 5,11).

É com esta compreensão da Igreja como comunidade e família do Senhor que os primeiros cristãos se relacionavam com os irmãos e irmãs catecúmenos e mesmo com seus amigos pagãos. Neste momento em que buscamos inspiração no catecumenato antigo para nossa Iniciação à Vida Cristã atual, vale a pena refletir sobre alguns testemunhos.

Toda a comunidade cristã sente-se responsável pela missão. O empenho missionário envolve todas as pessoas e todas as oportunidades e circunstâncias: na família, na vida social e profissional. Podemos apresentar dois testemunhos muito expressivos. Por volta do ano 140, Aristides de Atenas, em sua Apologia, escreveu sobre o apostolado dos cristãos em suas próprias famílias: 

“Quanto aos seus servos e servas – se os possui – e a seus filhos, os persuadem a se tornarem cristãos, por causa do amor que tem por eles. E quando se tornam, eles os chamam de irmãos, sem distinção” (ARISTIDE, Apologie XV,5; SC 470, p.229).

Algumas décadas mais tarde, encontramos um testemunho indireto. Celso, um pagão, acusa os cristãos de usarem os seus locais de trabalho, oficinas, comércios e ambientes do gênero, para divulgarem suas crenças. Segundo Orígenes, que é quem registra a acusação de Celso e busca contestá-la, o que escandaliza particularmente a Celso é que são homens e mulheres simples e sem instrução e, no entanto, se arrogam a condição de poder ensinar “como se deve viver” (ORÍGENES, Contra Celso III,55).

Ao empenho de evangelizar se acrescenta o testemunho de vida. Não basta anunciar o que Jesus ensinou, é preciso procurar vivê-lo. O exemplo é tão ou mais importante que a palavra. João já havia alertado: “Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e de verdade” (1Jo 3,18). Fundamenta-se sem dúvida no próprio Senhor: “Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (Jo 13,35). E sentirão vontade de fazer parte dessa relação amorosa, desta grande família. Hipólito, no início do século III, escreveu na Tradição Apostólica:

“Assim, vós todos, fiéis, procedendo dessa forma, prezando a tradição, instruindo-vos mutuamente e dando o exemplo aos catecúmenos, não podereis ser tentados, nem perecer, pois tereis sempre o Cristo presente na lembrança” (HIPPOLYTE DE ROME, Les Tradition Apostolique, n.42, SC 11 bis).

No mesmo sentido vai a Didascalia dos Apóstolos, ou seja, o ensinamento dos Apóstolos, um escrito provavelmente do início do século III, um período de grande perseguição aos cristãos. Após encorajar os cristãos a se manterem firmes diante da possibilidade do martírio, afirma:

“Comportando-nos desta forma, não é apenas a nossa alma que arrancamos da Geena, mas ensinamos aqueles que são novos na fé e os catecúmenos a se comportarem da mesma maneira. E assim viverão diante de Deus. Se, pelo contrário, falharmos na nossa fé no Senhor... não só perdemos a nossa alma, mas também matamos os nossos irmãos conosco. Pois quando virem nossa apostasia, pensarão que foram ensinadas doutrinas erradas a eles; ficarão escandalizados e nós seremos responsáveis por eles, como cada um de nós será responsável por si mesmo diante do Senhor no dia do julgamento” (La Didascalie des douze Apôtres XIX,VI,4-6).

Cada cristão e toda a comunidade evangeliza e dá testemunho de sua fé. Não seria diferente na dimensão litúrgica. Sem desprezar o papel de quem presidia a liturgia, os primeiros cristãos sempre insistiram na importância da presença da comunidade nas celebrações com os catecúmenos e nos batismos. A própria catequese era feita durante a liturgia da palavra com todos os fiéis, antes que os catecúmenos tivessem de deixar a assembleia. Os primeiros documentos que nos chegaram deixam isso claro. A Didaqué, um documento contemporâneo aos textos do Novo Testamento, incentiva a comunidade a participar com os catecúmenos dos eventos que preparavam o batismo, particularmente o jejum: “Antes do batismo, tanto aquele que batiza como aquele que vai ser batizado, e se outros puderem também, observem o jejum. Àquele que vai ser batizado, você deverá ordenar jejum de um ou dois dias” (Didaqué VII,4). Como o batismo em geral acontecia na Vigília Pascal, é provável que esta seja a razão de ainda hoje jejuarmos na Sexta-feira da Paixão. Mais explícito é Justino, em um texto escrito por volta do ano 155:

“Todos os que se convencem e acreditam que são verdadeiras essas coisas que nós ensinamos e dizemos, e prometem que poderão viver de acordo com elas, são instruídos, em primeiro lugar, para que com jejum orem e peçam perdão a Deus por seus pecados anteriormente cometidos, e nós oramos e jejuamos juntamente com eles. Depois os conduzimos a um lugar onde haja água e pelo mesmo banho de regeneração, com que também nós fomos regenerados, eles são regenerados (...) De nossa parte, depois que assim foi lavado aquele que creu e aderiu a nós, nós o levamos aos que se chamam irmãos, no lugar em que estão reunidos, a fim de elevar fervorosamente orações em comum por nós mesmos, por aquele que acaba de ser iluminado e por todos os outros espalhados pelo mundo inteiro...” (JUSTINO, I Apologia 61,2-3; 65,1).

Podemos afirmar, portanto, que pelo menos até o século III, toda a comunidade se envolve, cada um a seu modo, no anúncio inicial e instrução ou catequese, no exemplo pela vida e, por fim, na liturgia. São três aspectos através dos quais a Igreja exercita sua maternidade para com os convertidos. Com o decorrer da história, aparecerão ministérios específicos para cuidar de cada dimensão. Embora não devesse, muitas vezes se esqueceu que a responsabilidade é, antes de tudo, da comunidade. Os trabalharemos nos próximos artigos.



Artigo de Padre Belini, colunista do Jornal Servindo