INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ: MINISTÉRIO DO ACOMPANHAMENTO

11 de Março de 2025

"INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ: MINISTÉRIO DO ACOMPANHAMENTO"

Nos últimos meses tenho escrito sobre alguns dos ministérios, ou seja, serviços, que estão envolvidos no itinerário da iniciação à vida cristã. Toda a comunidade eclesial, povo de Deus, é responsável pelos novos membros. Ao anunciar o Evangelho e obter a aceitação de fé por quem o acolhe, deve iniciá-lo. Esta solicitude maternal da Igreja para com seus novos filhos tem provocado, na renovação atual do catecumenato, a redescoberta da instituição dos padrinhos dos adultos.

Após séculos de batizados quase exclusivamente de crianças e de uma situação em que a iniciação à vida cristã era relegada à sociedade, em tese com uma cultura cristã, tinha parecido a muitos que fosse dispensável a figura do acompanhante ou padrinho para os adultos. Pelo contrário, a redescoberta do catecumenato antigo mostrou a importância dessa instituição também para nosso tempo. A Igreja como um todo é responsável por acolher e acompanhar os simpatizantes e catecúmenos em seu itinerário, mas isso não tira o valor e a necessidade daqueles que exercem esse acompanhamento mais personalizado, aqueles que costumamos chamar simplesmente de “padrinhos” e “madrinhas”, literalmente, pequenos pais e mães. E de fato o são. São pais e mães “espirituais” de seus afilhados porque ajudaram a gerar neles a fé e a vida nova do cristão.

Para evitar mal-entendidos, podemos fazer algumas observações. Estamos acostumados com os “padrinhos” de crianças, em geral, recém-nascidas. Sua função tem início normalmente pelo testemunho na celebração do batismo e deve se desenvolver ao longo da vida do afilhado, o que, infelizmente, acontece de forma muito deficitária na maioria das vezes. Stenzel já em 1958 o chamava de uma “mentira litúrgica”. O apadrinhamento de adultos no catecumenato tem uma função que deve ser exercida durante toda a preparação batismal, ou seja, durante todo itinerário catecumenal, sustentando o afilhado em sua lenta caminhada para a fé viva; deve haver entre padrinho e afilhado uma relação pessoal de confiança e de diálogo. Em outras palavras, podemos falar de um “apadrinhamento coletivo”, eclesial, por todos os fiéis que convivem com o catecúmeno em seu dia a dia; mas também de um apadrinhamento específico que acompanha o afilhado em seu itinerário de vida cristã.

O padrinho tem por missão ser uma testemunha que garante e um pai que guia. Esta dupla função a assume em nome da Igreja para com o catecúmeno e em nome do catecúmeno para com a Igreja” (M. Dujarier)

As pesquisas históricas revelaram que a instituição do apadrinhamento teve sua origem com o batismo de adultos e não com o de crianças, como muitas vezes foi sugerido. Nos inícios da Igreja, o acompanhamento ou apadrinhamento ocorria espontaneamente. Quem se tornava cristão queria que seus familiares, amigos e companheiros de trabalho também pudessem compartilhar da boa nova cristã. Anunciavam o Evangelho para eles, ajudavam na conversão e os apresentavam à Igreja. Uma vez aceitos, os acompanhavam em toda a sua formação e pela vida. Nesta época, não havia sequer uma denominação para essa função ou reconhecimento eclesial, digamos, nenhuma “prescrição canônica”.

Hipólito, no início do século III em Roma, menciona “os que são trazidos pela primeira vez, para ouvir a Palavra” e que devem dar “testemunho deles os que tiverem conduzido, dizendo se são aptos para ouvir a Palavra” (Tradição Apostólica 32, p.46; edição port.). As indicações das quais dispomos deixam claro que os padrinhos desempenhavam um papel fundamental também ao longo do catecumenato. Além do testemunho de vida, ajudavam seus afilhados na aprendizagem e memorização, por exemplo, dos princípios da fé (na “devolução do Credo”; quando o catecúmeno deveria proclamá-lo de memória). Estavam presentes na recepção dos sacramentos e, o quanto possível, ao longo da vida do afilhado.

Após o século IV, quando a Igreja recebe a liberdade de existência com o imperador Constantino e depois torna-se a religião oficial do Império, essa missão vai sendo desempenhada sem muita seriedade. Aparecem, antão, normas canônicas dispondo que os padrinhos sejam fiéis, tenham uma certa idade e sejam bem conhecidos da Igreja. Começamos a encontrar exortações nas homilias que nos chegaram, até severas, sobre o papel dos padrinhos, como a de são João Crisóstomo, se dirigindo aos catecúmenos e seus padrinhos:

“Querem que também dirijamos a palavra àqueles que respondem por vocês, para que eles também possam saber das recompensas de que se tornam dignos se demonstrarem grande preocupação por vocês, e da condenação que sobrevirá a eles se os negligenciarem?

Considere, querido, aqueles que se tornam fiadores de alguém em questões financeiras: eles estão sujeitos a um perigo maior do que o próprio devedor que deve prestar contas e recebe o dinheiro. De fato, se o tomador do empréstimo se comporta bem, alivia a carga do seu fiador, mas, se, ao contrário, ele for ingrato, que catástrofe o aguarda! Por isso, certo sábio também exorta dizendo: Se você der fiança, considere-se devedor. Portanto, se aqueles que se tornam fiadores em questões financeiras se responsabilizam pela integridade da quantia, com maior razão os que se tornam fiadores em questões espirituais e no compromisso com a virtude devem demonstrar grande vigilância, exortar, aconselhar, corrigir e mostrar carinho de pais.

E não pensem que o que se faz é algo casual, mas saibam com total certeza que se envolverão na parte da boa fama se, por meio de suas advertências pessoais, os guiarem pela mão no caminho da virtude, mas que, se forem negligentes, sobre eles cairá uma condenação muito grave. Por esta razão, de fato, é também costume chamar tais pessoas de pais espirituais [“padrinhos”], para que aprendam efetivamente com qual ternura estes devem testemunhar aos seus [“afilhados”] para instruir-lhes nas coisas espirituais. De fato, se é bom orientar para o zelo da virtude aqueles que não têm nada a ver conosco, com muito mais razão devemos cumprir o mandamento em relação àquele que acolhemos como filho espiritual. Também vós, os fiadores, aprendestes assim que não é pequeno o perigo que pesa sobre vós, se sois negligentes.” (JEAN CHRYSOSTOME, Huit Catéchéses Baptismales. Hom. II, 15-16, p. 141-142; SC 50).

O RICA (Ritual da Iniciação Cristã de Adultos), que brota do anseio do Concílio Vaticano II, expõe a função do “acompanhante” com uma importante distinção. Reconhece que não necessariamente o processo todo precise ser levado a termo pela mesma pessoa, distinguindo entre introdutor e padrinho:

“O candidato que solicita sua admissão entre os catecúmenos é acompanhado por um introdutor, homem ou mulher, que o conhece, ajuda e é testemunha de seus costumes, fé e desejo. Pode acontecer que esse introdutor não exerça as funções de padrinho nos tempos da purificação, da iluminação e da mistagogia; nesse caso, será substituído por outro.” (n.42)

“O padrinho, escolhido pelo catecúmeno por seu exemplo, qualidades e amizade, e delegado pela comunidade cristã local com a aprovação do sacerdote, acompanha o candidato no dia da eleição, na celebração dos sacramentos e no tempo da mistagogia. É seu dever ensinar familiarmente ao catecúmeno como praticar o Evangelho em sua vida particular e social, auxiliá-lo nas dúvidas e inquietações, dar-lhe testemunho cristão e velar pelo progresso de sua vida batismal. Já designado antes da ‘eleição’, a partir desse dia exerce publicamente sua função, dando testemunho acerca do candidato diante da comunidade. Sua função é igualmente importante quando o neófito, tendo recebido os sacramentos, precisa de auxílio para manter-se fiel às promessas do Batismo” (n.43).

Tem ‘afilhado(a)’? Onde e como está? Tem ‘padrinho’ ou ‘madrinha’? Onde e como está?

Artigo de Padre Belini, colunista do Jornal Servindo