O Catecumenato em Jerusalém: A Peregrinação de Egéria

06 de Agosto de 2020

"O Catecumenato em Jerusalém: A Peregrinação de Egéria"

         Em 1884, um pesquisador italiano, Gamurrini, encontrou em um convento de Arezzo, um manuscrito ou um pedaço dele, já que está mutilado, até então desconhecido. Quase tudo em torno dele ainda permanece aberto, tema em discussão. Em todo caso, para nosso tema, a iniciação cristã na Igreja Antiga, é um precioso documento. Em latim, que é a língua do manuscrito, foi chamado de Itinerarium Aetheriae. Em português, foi traduzido como Peregrinação de Egéria: uma narrativa de viagem aos lugares santos.

         Pelas informações internas ao texto, sabemos que se trata de uma mulher, provavelmente uma monja, que faz uma peregrinação aos pontos mais significativos do judaísmo e do cristianismo: península do Sinai, Egito, Palestina, Mesopotâmia e Ásia Menor. Estima-se uma duração de três anos. O manuscrito são anotações, uma espécie de diário de viagem, para depois apresentar às suas companheiras, como ela o menciona, ao descrever as cerimônias e a liturgia nos lugares santos:

"Para que de fato Vossa Afeição soubesse que ofício se celebra nos lugares santos em cada dia, julguei dever vos informar, sabendo que teríeis prazer em conhecê-los" (24,1).

A descrição que ela faz, por exemplo, da liturgia da Semana Santa e Páscoa em Jerusalém é uma preciosidade para a história da liturgia.

         O próprio nome desta monja é duvidoso. A princípio foi identificada com uma Silvia, depois essa tese perdeu força porque, por informações externas, havia uma grande variação de tempo. Impôs-se o nome de Egéria, mas com uma grande variação de grafia: Echeria, Etheria, Heteria, Aeteria, Eicheria. Aetheriae, ou o português, Egéria, equivalente a Celeste. Deveria ser uma senhora monja de classe alta, já que para empreender uma viagem assim necessitaria de recursos e estrutura. Provavelmente contava com uma comitiva que a assessorava; um "diploma", ou seja, uma espécie de "passaporte diplomático", dado pelo Imperador e que lhe possibilitava utilizar a estrutura dos correios e instâncias imperiais. Em muitos locais é recebida em mosteiros e Igrejas com certa deferência. Esta peregrinação não é algo inédito para a época. Desde a paz de Constantino (início do século IV) e de que sua mãe, santa Helena, peregrinou pela Palestina em busca dos lugares marcantes para o cristianismo e erigiu neles Igrejas se produziu um grande movimento de toda cristandade em direção ao Oriente, particularmente à Terra Santa.

         Egéria poderia ter nascido na Espanha ou França. Mas há quem defenda inclusive que fosse lusitana. Isto porque Egéria cita os dias da semana como segunda-feira, terça-feira etc, e não a partir dos astros (lua, marte, mercúrio, júpiter...), e a única língua românica que manteve esta tradição foi justamente o português. Mais importante para nós é a datação. A partir de informações internas ao texto, é possível estabelecer datas limites: não deve ser anterior a 363, nem posterior a 540. Os estudiosos convergem para datá-la do final do século IV. D. Morin, um destes estudiosos, chega a propor de 393 a 396. Levando essa data em consideração, podemos fazer uma comparação interessante. Egéria descreve as cerimônias em Jerusalém presididas pelo bispo. Cirilo, bispo de Jerusalém, morreu em 386 ou 387. Em seu lugar assumiu João II, que morreu em 417. É possível, portanto, que o bispo mencionado por Egéria seja João II, sucessor de Cirilo, dois personagens da maior importância para nosso conhecimento da iniciação cristã. A eles se atribui uma obra sobre as catequeses mistagógicas. Aquelas catequeses proferidas aos neófitos na semana seguinte à Páscoa e que explicava os sacramentos recebidos.

         Egéria afirma ter julgado dever escrever sobre "como são instruídos aqueles que são batizados durante a Páscoa. Pois aquele que dá o seu nome dá antes do dia da Quaresma, e o presbítero anota os nomes de todos, isto é, antes daquelas oito semanas as quais disse aqui serem consideradas a Quaresma" (45,1). No dia seguinte, primeiro da quaresma, os candidatos se apresentam ao bispo, um a um. Se são homens, com os pais ou padrinhos, se são mulheres, mãe ou madrinhas. A palavra utilizada por Egéria pode indicar tanto um como outro, embora os estudiosos tendam por entender como madrinhas ou padrinhos. O bispo irá fazer uma investigação sobre a vida do candidato: se é honesto, se honra pai e mãe, se não tem vícios etc. (45,3):

         “E, se for provado ser sem repreensão a respeito de todas essas coisas que perguntou às testemunhas presentes, anota com sua própria mão o nome daquele. Mas se <o candidato> é acusado em relação a alguma coisa, ordena que ele saia para fora, dizendo: ‘Que se corrija e, quando tiver se corrigido, que se dirija ao banho <batismal>’. Assim diz, perguntando não só em relação aos homens, mas também às mulheres. Se alguém, porém, é peregrino, a não ser que tenha testemunhas que o conheçam, não acede tão facilmente ao batismo” (45,4).

         Os que foram aceitos para o batismo passam por uma severa preparação quaresmal. Assunto para o Servindo do próximo mês.