A iniciação cristã no século IV

07 de Maio de 2020

"A iniciação cristã no século IV"

         O século IV foi extraordinário para os cristãos. Tem seu início com uma violenta perseguição. O imperador Diocleciano (284-305) promove profundas reformas que propiciará a última explosão de brilho a Roma. Busca uma unificação administrativa e religiosa que não tolerará a existência dos cristãos. Uma série de medidas irá desencadear uma perseguição ferrenha: a depuração do exército; a proibição do culto cristão com a destruição das Igrejas e queima dos livros sagrados, a perda dos direitos e exclusão dos cristãos das funções públicas; a prisão dos chefes das Igrejas. Por fim, a libertação dos presos que consentissem em sacrificar aos deuses. O último de seus decretos ordenava a todos os habitantes do Império de oferecer sacrifícios aos deuses romanos, quem não o fizesse estaria sujeito a suplícios, morte ou trabalho forçado nas minas. Esta perseguição durou até 313.

         Muitos morreram testemunhando sua fé (é o significado literal de martírio). Em alguns lugares houve também um amortecimento dos decretos por aqueles que deveriam executá-lo. Já se conhecia melhor o cristianismo e havia uma coabitação fraternal entre cristãos e pagãos. Entre os mártires mais conhecidos, podemos lembrar-nos de São Sebastião, capitão da guarda pretoriana, a guarda pessoal do imperador. Foi morto em 286, acusado de traição por ser cristão e beneficiar os presos cristãos. Por outro lado, houve também muitos que diante da tortura e da possível pena de morte negaram sua fé (apostataram). Serão os chamados lapsi, do latim, "caídos". Trarão um problema pastoral sério quando, no momento de paz, quiserem retornar à Igreja.

         Embora tenha o século IV começado assim, terminará com a Igreja proclamada religião oficial e única do Império. Em 28 de outubro de 312, sobre a ponte Mílvia, diante dos muros de Roma, Constantino vence Maxêncio e se torna imperador do ocidente. Atribui sua vitória a Cristo, manifestando desde o início de seu reinado uma simpatia pelo cristianismo, embora somente tenha recebido o batismo em seu leito de morte, em 337. Sob o reinado de Constantino, a Igreja gozará de paz e de prestígio. Ele colocará a estrutura do Império à sua disposição, inclusive convocando o primeiro concílio ecumênico (com validade "universal"), realizado na cidade de Niceia, em 325. Sua mãe, santa Helena, já no fim de sua vida, faz uma peregrinação à Terra Santa e propicia a descoberta e recuperação de lugares até hoje significativos para os cristãos. Constantino, juntamente com Licínio, que reinava sobre a parte oriental, decretou a liberdade religiosa no Império, o que ficou conhecido como Edito de Milão (313). Eusébio de Cesareia, historiador cristão, nos transmite assim esta ordem de liberdade religiosa:

"Assim, pois, num retíssimo e salutar propósito, declaramos nossa vontade de que a ninguém absolutamente se recuse a liberdade de seguir e preferir a observância ou a religião dos cristãos e de que seja concedida a cada qual a liberdade de dar consciente adesão à religião que julgar melhor, de sorte que possamos contar sempre com a habitual providência e a benevolência da divindade." (História Eclesiástica X,5,5)

         Será com o imperador Teodósio (379-395), no entanto, que o cristianismo irá se tornar religião oficial e única do Império: Edito de Tessalônica (28 de fevereiro de 380). Convocou e propiciou o segundo concílio ecumênico: Constantinopla (381), fazendo triunfar a fé tal como havia sido definida em Niceia. Como religião não se impõe simplesmente por decreto e muitos não queriam abandonar seus cultos tradicionais, em 392, Teodósio promulgou mais dois decretos visando destruir o velho politeísmo romano. Os bens dos templos pagãos foram confiscados e entregues às Igrejas Cristãs, privilegiando o cristianismo com benefícios fiscais e judiciários. Aqueles que começaram o século perseguidos, o terminaram, em alguns casos, como "perseguidores". A Igreja aproveita a estrutura do Império para se organizar mais sistematicamente e para expandir a evangelização. Qual a consequência desta notável transformação para a iniciação cristã?    

         Encontramos um processo de iniciação cristã - catecumenato - institucionalizado já no século II. No século III, apresenta-se “em sua imagem mais autêntica”. No início do século IV, a estrutura ainda é mantida, com suas etapas e determinado período de formação, mas alguns documentos deixam perceber um afrouxamento na disciplina.

         "Seja por necessidade, seja por causa da autoridade de algumas pessoas, muitas coisas contrárias à regra eclesiástica se são produzidas: assim, se tem concedido o banho espiritual e com o batismo a dignidade episcopal ou sacerdotal a homens que apenas tinham passado da vida pagã à fé, e que não haviam sido instruídos senão por pouco tempo; é justo que no porvir não se aja mais assim, porque o catecúmeno necessita de tempo (com vistas ao batismo), e depois do batismo, um tempo mais longo de prova (em vista das ordens)" (Concílio de Niceia, ano 325, can.2)

         Parece que o Concílio não conseguiu manter a disciplina catecumenal pretendida. Mesmo para as ordenações. Um caso notório é o de santo Ambrósio, eleito para o episcopado de Milão quando ainda era catecúmeno (nesta época, o bispo era eleito pelos membros de sua Igreja). No prazo de uma semana recebeu o batismo, confirmação, eucaristia e o episcopado.

         Lendo os santos padres desta época, identificamos sobretudo dois problemas. A insuficiência dos motivos que levam a se fazer catecúmeno e a pedir o batismo. Algum interesse faz com que simulem a fé que não tem. Escreveu Cirilo de Jerusalém: "Ninguém entre vós seja um Simão: nada de hipocrisia e curiosidade excessiva. É possível teres vindo por algum outro pretexto. Pode acontecer que um homem queira agradar a mulher e venha por este motivo. O mesmo se pode dizer das mulheres. O escravo muitas vezes quer agradar ao patrão, o amigo ao amigo" (Catequese Preliminar 4-5; se refere a Simão Mago de At 8,9-24). 

         O segundo problema é a protelação em receber os sacramentos. Alguns queriam passar a vida simplesmente como catecúmenos, tendo o status de cristãos, mas não se comprometendo integralmente com os sacramentos e a comunidade. Unido a esta questão está ainda uma indefinição da pastoral da reconciliação. Simplificando as coisas, poderíamos dizer que muitos pensavam no batismo como nós pensamos na "extrema unção". O próprio Constantino recebeu o batismo no leito de morte. Nos escritos dos bispos deste século encontramos textos que exortam os catecúmenos a se inscreverem para o último período de preparação e receberem os sacramentos da iniciação na páscoa seguinte. Basta-nos ler João Crisóstomo: "Como não ser o máximo da loucura o fato de atrasar continuamente o batismo? Escutai, vós catecúmenos e vós que retardais vossa salvação até o último suspiro" (PG 59,115).

         Os Padres dos séculos IV e V identificaram o problema, o debateram em Niceia e não se cansaram de lutar pela seriedade do processo catecumenal. Insistirão que não basta o sacramento para a salvação. É preciso ter uma fé verdadeira e viver de acordo com esta fé. Contudo, embora permaneça o linguajar das etapas catecumenais, sua realização está bem empobrecida. No século III, com algumas exceções, encontrávamos um tempo mínimo de catecumenato de 2 ou 3 anos. As coisas mudaram.

         "Parece certo que por volta do ano 400 não se estipule nenhuma duração mínima. O catecumenato propriamente dito não existe mais. Os catecúmenos vão ou não à Liturgia da Palavra, segundo o grau da sua convicção. Já não são seguidos de perto por alguns responsáveis em grupos estruturados. A Igreja parece mais preocupada em 'empurrar' ao batismo aos candidatos amorfos que de retardar com um longo tempo de prova o anseio dos poucos candidatos demasiadamente precipitados. E se se encontra alguém particularmente bem disposto, se lhe admite muito depressa à iniciação" (Michel Dujarier)

         Para remediar esta situação, a quaresma será um tempo de intensiva formação. A catequese irá ganhar o centro das atenções. Não à toa, este será o tempo dos grandes catequetas. Contudo, por volta do ano 500 encontraremos a entrada no catecumenato e o batismo em uma mesma celebração. É o caso descrito no assim chamado Pseudo-Dionísio, o Aeropagita, em A Hierarquia Eclesiastica, II,2-7. Este é o pano de fundo em que vamos ler as obras de Cirilo de Jerusalém, Ambrósio, Agostinho e Egéria.