O catecumenato nos três primeiros séculos

24 de Março de 2020

"O catecumenato nos três primeiros séculos"

         Desde seus inícios a Igreja teve muita preocupação em preparar bem seus novos membros. Eles eram recebidos e acompanhados pela comunidade após darem provas de sua conversão e disposição em adequar sua vida com os princípios cristãos. Alguns precisavam inclusive mudar de profissão. Começava aí uma longa preparação para a recepção dos sacramentos da iniciação cristã - batismo, confirmação e eucaristia. O catecumenato (embora tenham existido outros nomes também) nomeia este tempo, estruturado em etapas, de solidificação da conversão, formação existencial e intelectual. Esta formação envolve todas as dimensões: humana, litúrgica, moral e teológica. Além de ser essencialmente comunitária.

         Devemos nos lembrar que a Igreja, entendida como a comunidade dos que se reúnem em torno do anúncio do Evangelho e pregação dos apóstolos, vai se construindo aos poucos. Nos Atos dos Apóstolos encontram-se alguns sinais de sua primeira organização, mas será a necessidade prática ao longo de sua difusão e história que irá delineando a Igreja que conhecemos. A hierarquia eclesiástica - bispos, padres e diáconos - já está bem fixada no fim do segundo século, por exemplo. Quanto ao nosso tema, escreveu Michel Dujarier:

"... a evolução se seguiu com normalidade. O que estava em gérmen no Novo Testamento se desenvolveu progressivamente. O período batismal, com seu exame de admissão, foi o primeiro que se estruturou. Depois chegou a institucionalizar-se também o período catecumenal propriamente dito e foram formulados com precisão os critérios de entrada no catecumenato. Com isto se sublinhava a necessidade de um tempo prévio de evangelização"

         Segundo R. F. Refoulé, é difícil admitir que tenha havido um catecumenato institucionalizado antes do ano 170, embora haja quem o defenda. Em todo caso, o catecumenato se expandiu rapidamente e com uma surpreendente estrutura em comum entre Igrejas distantes, como já encontramos em Hipólito de Roma ou Tertuliano de Cartago, norte da África.

         Os cristãos são, nesses três primeiros séculos, minoria na sociedade pagã. Este termo, aliás, merece uma explicação, ainda que bem sumária. Vem do latim paganus, camponês, aquele que habita na zona rural. O cristianismo se expandiu a partir das cidades, por isso, em um determinado momento, quem ainda não havia sido evangelizado e recebido o batismo era o paganus (pagão), o que habitava distante dos centros urbanos. Às vezes se confunde paganismo com ateísmo. Na verdade, este último, como fenômeno de massa, só aparece na sociedade moderna. Os pagãos eram religiosos e, frequentemente, politeístas (acreditavam em muitos deuses). No mundo antigo, é comum o estado e a religião se confundirem. Por isso, encontramos uma religião cívica (os povos possuem seus próprios deuses e festas que possibilitam, em nossos termos, uma "identidade nacional") e, para os mais sedentos, religiões de mistérios (eram "movimentos religiosos" com uma dinâmica própria, como por exemplo, o orfismo e os cultos em torno do santuário de Elêusis). Normalmente, as religiões de mistérios se acrescentavam às cívicas sem muitos problemas. Diferentemente do cristianismo, estas religiões não impunham uma moral própria, se adequando bem a cada situação.

         Não é difícil perceber que os cristãos não se encaixam neste tipo de sociedade. Não cultuam os deuses pátrios das religiões cívicas e não participam de suas festas. Devemos nos lembrar que eram durante estas festas que se imolavam animais aos deuses e depois se partilhavam suas carnes. Essa é a origem de um eterno problema: podia os cristãos comer as carnes devotadas aos deuses e, portanto, para eles, ídolos ("deuses falsos")? Por causa de sua abstenção no culto e nas festas serão acusados de "ateísmo", isto é, de não crerem nos deuses que seus concidadãos acreditavam.

         A história mostra que os cristãos foram perseguidos. A primeira grande perseguição no mundo romano aconteceu com o imperador Nero, no ano de 64. Nero precisava incriminar alguém pelo incêndio que destruiu três quartos da cidade de Roma. Jogou a culpa nos cristãos. O povo os conhecia pouco, mas os tinha por ateus, com maus costumes. Na noite de 15 de agosto de 64, no circo de Nero, onde hoje é o Vaticano, durante os jogos e festejos, os cristãos foram transformados em tochas vivas.

         As perseguições aconteceram alternando períodos de muita violência com períodos de alguma tolerância; locais, mas também em todo o Império. Sob o imperador Décio (249-251), que queria restaurar o culto da Roma antiga, por exemplo, todos os cidadãos foram obrigados a manifestar expressamente sua adesão à religião oficial do Império (religião cívica) através de um sacrifício, uma libação ou a participação em uma ceia sagrada. Ao fazerem, recebiam os libelli, certificados oficiais. Os que se recusavam podiam ser condenados à morte por traição. Muitos cristãos (entre eles catecúmenos) foram martirizados. Outros voltarão ao paganismo.

         "Os cristãos não se distinguem dos outros homens por nenhum detalhe exterior. Eles participam inteiramente da vida da cidade. Mas seus chefes exigem que eles reajam com força aos hábitos pagãos - luxo da moda, bebedeiras, espetáculos obscenos ou cruéis, divórcio. O Evangelho deve instruir as relações cotidianas. Pede-se a homens fracos que tenham uma atitude viril, um controle permanente de gestos e pensamentos. A iniciação dos catecúmenos e a reconciliação dos pecadores não são formalidades ou ritos destituídos de sentido: exigem uma força e uma humildade singulares" (Pierre Pierrard)

         Neste ambiente, percebemos toda a gravidade da escolha de ser cristão. Também da preocupação da comunidade em ter membros realmente convertidos e comprometidos com ela, sobretudo nos momentos de maior perseguição, quando a Igreja se reúne às escondidas. Devemos nos lembrar que o convertido não apenas continuava vivendo num mundo pagão, mas também em uma família pagã. Nem sempre a conversão tocava todos os membros. O que tornava a existência certamente mais difícil.

         Os três primeiros séculos do cristianismo foram de intensa atividade missionária. No entanto, a quantidade não se sobrepunha à qualidade. Ao contrário de hoje, quem quisesse ser cristão deveria convencer os membros da comunidade cristã que sua conversão era sincera e seu esforço para seguir as orientações evangélicas era verdadeiro.  Daí o papel do introdutor e seu testemunho em favor dos candidatos, bem como dos escrutínios.

"A história fala por si mesma. Nos quatro ângulos do mediterrâneo, a Igreja missionária colocou em prática as exigências de uma séria preparação batismal. No século III encontramos a imagem mais autêntica do catecumenato: o testemunho dos mártires, o diálogo dos cristãos, a vida da comunidade, despertam a fé dos convertidos. A comunidade, então, se responsabiliza por eles e os faz caminhar. Leva-os em seu seio, os instrui e os forma, a fim de que, em sucessivas etapas, possam entrar nesta vida nova que deve crescer incessantemente e trazer frutos" (Michel Dujarier)

         As celebrações ainda são muito simples. Confrontando o que nos dizem Tertuliano e Hipólito, entre outros, podemos reconstruir assim: após passarem algum tempo em jejum e oração, aqueles eleitos entre os catecúmenos para receberem o batismo se aproximam da fonte de água; há a bênção solene da água pelo bispo, se ele estiver presente, caso contrário, pelo sacerdote que preside; em seguida, os candidatos renunciam aos demônios e suas obras; vem o rito propriamente dito: a tríplice imersão com a tríplice profissão de fé; o bispo confere a unção ao neobatizado, o marca com o sinal da cruz e lhe impõe as mãos; juntos à comunidade participam da celebração eucarística pela primeira vez, comungando do corpo e do sangue de Cristo.

Pe. Luiz Antonio Belini