Orígenes e o catecumenato no Egito e na Palestina do século III

04 de Março de 2020

"Orígenes e o catecumenato no Egito e na Palestina do século III"

Nos dois últimos meses escrevi sobre o catecumenato e a celebração dos sacramentos da iniciação cristã em Roma no início do século III, como a testemunha os escritos de Hipólito de Roma. Esta caminhada, pela mesma época, também foi feita no Egito e na Palestina. Nosso melhor testemunho vem de Orígenes, um grande catequeta e, possivelmente, a mente mais brilhante e fecunda do cristianismo primitivo.

Orígenes nasceu por volta de 185, provavelmente em Alexandria, a cidade helênica do Egito. Seu pai, Leônidas, foi martirizado em 201 ou 202. Orígenes foi acolhido por uma pagã que proveu seu sustento e lhe propiciou uma formação intelectual esmerada. Sendo cristão, mas vivendo e trabalhando em um meio pagão, Orígenes viu na cultura em geral, mas na filosofia em particular, um grande auxiliar no desenvolvimento da teologia e da evangelização. Se este projeto lhe possibilitou uma atividade fecunda, o expôs também a equívocos e perseguições.  Do ponto de vista moral, levou sempre uma vida reta e austera. Em 212 foi a Roma para conhecer a Igreja. Temos informações que por esta época escutou uma homilia de Hipólito. Em 215, quando as tropas do imperador Caracala invadiram Alexandria, Orígenes fugiu para Cesareia, na Palestina, desenvolvendo ali intensa atividade, fundando uma escola semelhante a de Alexandria. Na perseguição de Décio, Orígenes foi preso e morreu em seguida por consequência das torturas que sofreu, aos 70 anos, entre 253 e 254.

Quando o número de cristãos começa a aumentar, Orígenes expressa preocupação com a qualidade dos catecúmenos. Quer manter a pureza da vida cristã.

         “Se julgamos as coisas segundo a verdade (...) temos que reconhecer que não somos fiéis. No tempo em que se era verdadeiramente fiel, quando o martírio golpeava desde o nascimento (na Igreja) (...) quando os catecúmenos eram catequizados no meio dos mártires e da morte dos cristãos que confessavam a fé até o final, e estes catecúmenos, superando estas provas, se vinculavam sem medo ao Deus vivo (...) É então quando os fiéis eram pouco numerosos, sem dúvida, mas verdadeiramente fiéis, avançando pela via estreita e áspera que leva à vida” (Homilia sobre Jeremias 4,3)

Orígenes foi um profundo conhecedor da Palavra de Deus, com predileção pela exegese alegórica. Esta interpretação bíblica, que começou com os próprios hebreus, foi amplamente utilizada pelos Padres da Igreja. Eles interpretam todo o Antigo Testamento em função do Novo, dando um significado espiritual diferente do que tinha originalmente. Não vem ao caso aqui fazer uma avaliação da exegese alegórica (alegoria vem do grego: allas = outro + agoreyo = falar ou proclamar; literalmente significa "dizer uma coisa que significa outra"; ou seja, transferir - a palavra - a outro sentido). Basta dizer que, enquanto recurso literário, a alegoria é útil, mas como sistema de interpretação pode acabar transformando tudo em uma grande "fantasia". Um exemplo de interpretação alegórica encontra-se em Gal 4,24, onde as duas mulheres de Abraão são apresentadas como simbolizando as duas Alianças. No que aqui nos interessa, Orígenes utilizará imagens do Antigo Testamento para expressar as etapas catecumenais.

"O simbolismo da saída do Egito se compreende de duas maneiras, nos dizem nossos predecessores e nós mesmos temos repetido frequentemente. Quando das trevas do erro se é conduzido à luz do conhecimento, quando de uma vida terrena se tem iniciado na vida espiritual então se sai do Egito e se passa pelo deserto, isto é, a um gênero de vida na qual, em meio ao silêncio e a calma, exercita-se nas Leis divinas e se impregna dos oráculos celestes; depois, quando se submete a sua formação e direção, depois de ter passado o Jordão, se apressa até a Terra Prometida, o que significa dizer, que pela graça do batismo, se chega até os preceitos evangélicos" (Homélies sur les Nombres 26,4; Sources Chrétienne 29, p.501)

Orígenes usa imagens simples, mas fortes de significado e fáceis de memorizar: a caminhada da escravidão do Egito até a Terra Prometida. Tem início pela conversão: saída do Egito; período de purificação: deserto; entrada no catecumenato: passagem pelo mar vermelho; até o batismo: passagem pelo Jordão; participação no Reino de Cristo: Terra Prometida. Outro texto de Orígenes é ainda mais expressivo:

"E não vá imaginar, agora que pretendes contar o que se passou entre os antigos, que tudo isto não se refira a ti; todas estas coisas se cumprem em ti de maneira espiritual. Desde que tu abandonaste as trevas da idolatria e que desejas chegar ao conhecimento da lei divina, então começa a saída do Egito. Quando tens sido agregado à multidão dos catecúmenos e tens começado a obedecer aos mandamentos da Igreja, então tens atravessado o Mar Vermelho; nas paradas do deserto, cada dia, te aplicastes a escutar a lei de Deus e a contemplar o rosto de Moisés que te mostra a glória do Senhor. Mas, desde que chegastes a fonte espiritual do batismo e que em presença da ordem sacerdotal e levítica tu serás iniciado nestes mistérios augustos e sublimes que conhecem apenas aqueles que tem direito de os conhecer, então tendo atravessado o Jordão, graças ao ministério dos sacerdotes, entrarás na terra da promessa, essa terra na qual Jesus, depois de Moisés, te toma a seus cuidados e se torna o guia se sua nova rota" (Homélies in Jesu Nave IV,1; Sources Chétiennes 71, p.148-149)

O itinerário para o batismo parece claro. Tem início com o tempo de evangelização, que faz com que a pessoa entre em contato com o cristianismo. Isto é feito de modo informal, na convivência. Mas implicará na aceitação e transformação de vida. É o que temos chamado até agora de Querigma ou primeiro anúncio, mas poderíamos chamar também de pré-catecumenato. O seu conteúdo deve ser o que encontramos esboçado em 1Ts 1,9-10: "Eles mesmos falam da acolhida que tivemos entre vocês, e de como vocês se converteram, deixando os ídolos e voltando-se para Deus, a fim de servir ao Deus vivo e verdadeiro. Falam também de como vocês esperam que Jesus venha do céu, o Filho de Deus, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos. É ele que nos liberta da ira futura". Implicava, portanto: rejeição dos ídolos, o que tinha consequências concretas para a vida, inclusive profissional; reconhecimento do único criador e fé em Jesus Cristo; apresentação da excelência e pureza do cristianismo.

Como em Hipólito, encontramos em Orígenes a menção de um exame rigoroso para entrar no catecumenato. Orígenes cita ainda um rito que celebra este ingresso. Entre os catecúmenos, cita dois grupos: os principiantes e os eleitos. Respondendo a críticas do filósofo Celso, Orígenes diferencia o modo de agir dos cristãos, nos dando informações a este respeito:

"Os cristãos, enquanto lhes é possível, começam a pôr à prova as almas dos que querem ser seus ouvintes e a formá-las em particular. Quando os ouvintes, antes de entrarem na comunidade, dão mostras de terem alcançado progresso suficiente na vontade de viver virtuosamente, são introduzidos pelos cristãos. Constituem à parte um grupo dos principiantes que acabam de ser iniciados e ainda não receberam o símbolo da purificação; depois, vem o outro grupo, o dos que deram as melhores provas de sua decisão de não querer nada mais senão o que foi aprovado pelos cristãos. Entre eles, alguns têm a tarefa de investigar sobre a vida e a conduta dos candidatos, para impedir a entrada em sua assembléia geral de pessoas culpadas por faltas secretas, e acolher os outros de todo coração e torná-los melhores a cada dia" (Contra Celso III,51).

E quando o catecúmeno não corresponde como o esperado? Diferentemente das escolas filosóficas, contra quem está escrevendo, ele afirma: "Os cristãos, por sua vez, pranteiam como defuntos aqueles que se deixaram vencer pela luxúria ou por alguma outra desordem por se terem perdido e morrido para Deus. Quando manifestam uma conversão séria, depois de um tempo maior do que o de sua primeira iniciação, admitem-nos novamente como ressuscitados dos mortos; mas os que caíram depois de seu ingresso no cristianismo não são nomeados para nenhum cargo nem presidência na 'Igreja de Deus'" (Contra Celso III,51).

Pe. Luiz Antonio Belini