Tertuliano e o Tratado sobre o Batismo

26 de Novembro de 2019

"Tertuliano e o Tratado sobre o Batismo"

         Nos dois últimos artigos escrevi sobre o catecumenato em Roma no início do século III. Uma cidade quase tão importante quanto Roma e Alexandria nesse período é Cartago, no norte da África. Ali encontramos Tertuliano, mais ou menos contemporâneo de Hipólito. É uma das primeiras e inestimáveis fontes para nós.

         "Seu De Baptismo é uma obra de grande importância para nosso assunto. É a mais antiga exposição de conjunto sobre o sacramento do batismo. Enquadrado entre a época apostólica e o século IV, é como o protótipo das catequeses mistagógicas futuras e, por sua vez, a prolongação da tradição evangélica" (Jean Daniélou)

         Quintus Septimius Florens Tertullianus nasceu por volta do ano 160, em Cartago. Seu pai era um alto funcionário romano. Tertuliano recebeu uma sólida formação intelectual e moral. Especializou-se em direito e retórica. Embora sua língua mãe fosse o latim, falava fluentemente o grego. Sabemos que morou em Roma, onde exerceu a jurisprudência. Em torno de 195 o encontramos de volta a Cartago, já como cristão. Em sua cidade se entregou a uma intensa atividade literária a serviço da Igreja. De fato, terá a produção mais extensa entre os cristãos até o início do século IV. Sua personalidade rigorista e inflexível, no entanto, fez com que rompesse com a Igreja, por volta de 207. Ainda não se tinha clareza quanto à teologia e pastoral da reconciliação e a Igreja se dividia entre aceitar ou não a volta daqueles que após o batismo sucumbiam em pecados graves ou, frente às perseguições, abandonavam a fé. Inicialmente Tertuliano parece ter aderido a uma heresia rigorista conhecida como montanismo, que depois também abandonou em vista de uma compreensão própria de cristianismo e Igreja.

         Seus escritos, não obstante ele ter se afastado da Igreja, nos trazem informações relevantes sobre a iniciação cristã, a celebração e a teologia dos sacramentos. Tertuliano dominava a língua latina e a manejava de tal forma que forjou conceitos e formas novas. É um dos principais formuladores do que será conhecido como latim cristão da Antiguidade. Criou frases teológicas densas e profundas muito repetidas ao longo da história. Seu estilo conciso e forte, contudo, o torna muitas vezes obscuro e complicado. Este fator, unido à sua deserção, fez com que logo deixasse de ser lido. Morreu em idade avançada, depois de 220, em Cartago.

         Para recolhermos as informações que Tertuliano nos dá sobre a iniciação cristã precisamos percorrer suas obras (nos chegaram 31 ao todo). Uma, no entanto, se destaca: De Baptismo (O Batismo; publicado também como Tratado sobre o Batismo). Mais do que uma catequese, o objetivo desta obra é defender o sacramento do batismo cristão dos ataques de uma seita gnóstica que professava o dualismo maniqueísta. Explicando de forma bastante simples: afirmavam que tudo o que chamamos de espírito ou espiritual é bom e procede de Deus; já o que é material é mal e não procede de Deus. A água, portanto, com a qual se batiza, deve ser rejeitada e apenas a fé é necessária para a salvação. Tertuliano, ao contrário, irá demonstrar a unidade da ação salvadora de Deus que perpassa a história, do mundo material e espiritual, da criação e da redenção. Dito com a expressão emblemática de Tertuliano: "Caro salutis est cardo" (De Carnis Resurrectione, VIII,3: "A carne é o eixo da salvação").

       

         "Nós, peixinhos segundo o nosso ichtys - Jesus Cristo, nascemos da água e só nos salvamos permanecendo na água" (De Baptismo I,3)

         Devemos nos lembrar que os cristãos usavam o peixe (ichtys) como símbolo, a modo de acróstico, ou seja, cada letra que compõe a palavra no grego indica a palavra de uma frase, podendo ser lido como "Jesus Cristo Filho de Deus Salvador". Segundo Tertuliano, Deus escolhe os meios através dos quais Ele quer atuar no mundo e a água foi sempre um destes meios privilegiados. Ele revisa uma série de eventos: a água na criação, no dilúvio, na passagem do mar vermelho (Ex 14,21-31; Tertuliano escreveu sobre este evento: "pode haver uma prefiguração mais clara do sacramento do batismo?"- De Baptismo IX,1), na rocha, a água amarga (Ex 15,22-27); passando pelo batismo de João e da água que escorre do lado aberto de Jesus na cruz. Tertuliano conclui:

         "Portanto, qualquer tipo de água em virtude de uma prerrogativa que lhe pertence desde a origem, pode assumir em si o poder misterioso de santificar, desde que Deus venha invocado sobre ela; imediatamente vem do Céu o Espírito sobre ela, santificando-a com sua presença; e assim, santificada, pode por sua vez santificar" (De Baptismo IV,4)

         Como no texto acima, Tertuliano é nosso primeiro testemunho da bênção da água batismal. Este costume pode estar na origem da nossa celebração de bênção da água batismal no Sábado Santo. Para Tertuliano, depois da ressurreição de Cristo o batismo é necessário para a salvação (De Baptismo XII,1): "O banho batismal é o selo da fé" (De Penitentia VI,16). Tem um caráter penitencial e único: "Uma única vez na vida temos acesso ao banho batismal e uma única vez são lavados os pecados justamente porque não se deve mais cometê-los" (De Baptismo XIII,3). Reconhece o valor e a nobreza de "um segundo batismo, também este único, o batismo de sangue" (De Baptismo XVI,1), o martírio: "O sangue dos mártires é a semente dos cristãos" (Apologeticum L,13).

         Tertuliano é nossa garantia de que por volta do ano 200/210 já existe na Igreja da África um tempo de formação catecumenal para quem pede o batismo. O convertido precisa de tempo para consolidar sua conversão e para sua formação intelectual e moral. "Que aqueles que têm a função [de administrar o batismo] saibam que o batismo não se deve dar rapidamente" (De Baptismo XVIII,1). Por causa de sua teologia que não prevê a possibilidade de perdão para pecados graves depois do batismo (parece que uma exceção seria o martírio), Tertuliano se opõe ao batismo de todos aqueles que estão vulneráveis ainda ao pecado. Nomeia explicitamente as crianças, solteiros e viúvos jovens. Tertuliano não apresenta razões teológicas, apenas conveniência pastoral. Em caso de emergência, pode acontecer o batismo. Em todo caso, nos séculos seguintes será cada vez mais comum protelar ao máximo o batismo, permanecendo-se longamente catecúmeno.

         Nos escritos de Tertuliano encontramos com frequência a palavra catecúmeno, que ele simplesmente transcreve do grego para o latim. Usa também outras expressões, como prosélito de Cristo. No escrito De Penitentia, faz analogia com a carreira militar, chamando os catecúmenos de noviços ou recruta (VI,1) e fala de um noviciado militar (tirocinia, no plural - VI,4), para distinguir daqueles que já são soldados, ou seja, que já prestaram juramento. Esta pode ser também a origem do uso por nós da palavra sacramento (sacramentum era o juramento militar, feito aos deuses pátrios nas sociedades pagãs; algo como nosso juramento à bandeira no serviço militar). Criticando os que seguem o herético Marcião, escreve sobre esta seita: "Não se sabe quem é catecúmeno e quem é fiel; eles entram do mesmo modo, escutam do mesmo modo, rezam do mesmo modo. Inclusive quando se apresentam pagãos (...) Os catecúmenos são definitivamente iniciados antes de serem instruídos" (De Praescriptione Haereticorum XLI,2).Neste texto aparece claramente três categorias: pagãos, catecúmenos e fiéis.

         Para pertencer ao grupo dos catecúmenos, deverá ser apresentado por um fiel (nosso "introdutor"), passar por um exame prévio, que Tertuliano não menciona, mas pressupõe porque afirma explicitamente que existem profissões incompatíveis (sobretudo aquelas ligadas a idolatria) e devem ser abandonadas. Não encontramos ainda em Tertuliano um detalhamento do conteúdo do catecumenato. Para isso teremos que esperar o século seguinte com Cirilo de Jerusalém. Mesmo as celebrações ele não as descreve detalhadamente. Em todo caso, nos diz sobre elas o fundamental. Eram muito simples e, no essencial, semelhantes ao que encontramos em Hipólito. Os sacramentos - Batismo, Confirmação e Eucaristia - eram administrados em uma mesma celebração. Embora o centro da celebração da Confirmação esteja, para Tertuliano, na imposição da mão pelo bispo. Após sair da água e ser ungido com o óleo e, portanto, livre dos pecados, diz: "vem imposta a mão com uma oração de bênção para invocar e convidar o Espírito Santo. (...) Naquele momento o Espírito verdadeiramente santo desce do Pai sobre aqueles corpos já purificados e abençoados (...)" (De Baptismo VIII,1.3).

         Para terminar, Tertuliano expõe algumas questões jurídicas sobre o batismo. A faculdade de batizar pertence primeiramente ao bispo, depois ao sacerdote e aos diáconos, mas sempre com a autorização do bispo. Em caso de necessidade ou com a autorização do bispo, qualquer leigo batiza validamente.

         "Depois, saídos do banho [batismal], somos ungidos com óleo abençoado em conformidade com uma antiga prática (...); eis porque eram chamados 'christi', isto é, ungidos, e a palavra grega 'chrisma' quer dizer exatamente unção; também o nome do Senhor, isto é, o nome de Cristo, tem a mesma derivação linguística" (De Baptismo VII,1)